Novelas
Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes
António Teixeira-Gomes |
Novelas Eróticas 1ª Ed |
MARGARETA
Em matéria de viagens fui sempre, por
instinto e reflexão, refratário a programas; contudo, na minha primeira ida à
Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão
incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano
que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das
digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.
Desta vez tendo forçosamente – a
obrigação sentimental! – de passar por Sevilha, deliberei tomar ali algum vapor
costeiro que me levasse a Barcelona, onde procuraria transporte direto a
Génova, seguindo logo para Florença, na resolução de permanecer em território
toscano durante a primavera.
Na minha grande inexperiência
afigurava-se-me que, evitando a França, nada interromperia nesse trajeto o
caráter essencial e comum à alma neo-latina, e trasladar-me de Espanha a Itália
seria apenas continuar em país habitado por gente de igual compleição
intelectual, embora diversa na denominação geográfica.
Grande alcance estético prestava eu a
essa peregrinação de Florença, parecendo-me conveniente evitar tudo quanto me
desviasse o espírito das linhas progressivas e convergentes à pátria austera de
Miguel Ângelo.
Iluminações formosas (totalmente
confirmadas depois) eram as que então me sugeria a miragem da fascinadora
cidade!
Visitados os pontos de mais devoção do
meu culto sevilhano meti-me no vapor Gigon, e descido o Guadalquivir de margens
planturosas repeti com redobrado gosto o já meu muito conhecido roteiro da
costa espanhola, de Cádis a Barcelona.
Esses vapores só navegam, habitualmente,
durante a noite, de forma que os dias inteiros podia-os o passageiro levar em
terra, nas numerosas cidades da escala obrigada, cidades de que eu tinha – e
ainda hoje tenho – as floridas etiquetas pitorescas, românticas e
imarcescíveis: Cádis de especiosos encantos; Algeciras, com o seu nome de
arribada em velha crónica, e o panorama da imensa baía que Gibraltar espreita e
domina; Málaga das mulheres pérfidas e das ciganas doiradas; Almeria tórrida,
escondendo no seu aparente manto de enxofre e esparto a veiga fertilíssima;
Cartagena fortificada em cerros naturais, que lhe fecham o porto num círculo
perfeito; Alicante árabe, propícia aos palmeirais; Valência das tranças
acobreadas, rescendendo a flor de laranjeira e a anis; Tarragona dura e
ventosa, ilustrada pela colossal rosácea da sua catedral, os seus presídios e
os sólidos vestígios de muito remotas idades...
Barcelona, nesse tempo, sofria apenas dos
pródromos da sua crise demolidora e reconstrutiva; existia ainda intacto o
bairro da catedral, com a sua rede de tortuosas ruas estreitas, formando nós em
palácios góticos de florente fachada; a «praça real», italiana como a de
qualquer burgo perdido nos Apeninos; a graça, a afabilidade hospitaleira da sua
população robusta, mourejante, industriosa; e os campos acidentados, ricos em
deslumbrantes panoramas, marchetados de jardins e ruínas preciosas.
No caráter geral da cidade havia mais
homogeneidade, de modo que a catedral – a incomparável – com as suas naves
tenebrosas, onde se acendem as fulgurações dos vitrais; o claustro composto,
deduzido, como sinfonia magistralmente orquestrada na série das suas capelas de
retábulos polilhados, entrevistos através de vetustíssimas e imaginosas grades
de ferro batido; a sua catedral – a única – não dava ainda essa impressão de
flagrante anacronismo que depois foi tomando passo a passo, com a abertura das
infinitas avenidas retilíneas, dos esquares geométricos, das vastas praças
retangulares.
Era ainda um ponto de romaria piedosa,
para o artista e para o crente, essa catedral e o seu bairro. Ali me entretive
dias inteiros, sem me impacientar com o atraso do Orion, grande vapor da
companhia Rubatino, vindo de Buenos Aires, no qual resolvera embarcar para
Génova, contentando-me com passar diariamente pela agência, que era próxima do
meu hotel, a informar-me da sua chegada. No dia em que ele apareceu, comprado o
bilhete, fui fazer as minhas despedidas ao templo, onde levara horas de tão
puro enlevo. Mas não ia muito senhor de mim: algo enternecido e como que
envergonhado de sentir que me faltava a fé...
Já passava do meio-dia e tudo se
encontrava deserto. Dei a volta ritual do claustro, coei-me ao interior do
templo, e deliciei-me pela derradeira vez nas perspetivas daquelas grutas de finíssimas
estalactites, onde as formas hieráticas traduziam aspirações celestiais, e os
rastos de ouro acentuavam nas trevas as curvas elegantes – suplicantes – das
altíssimas ogivas.
Depois, no ponto mais apagado, mais
sepultado em escuridão, procurei um banco e sentei-me. Todas aquelas linhas
esfuziantes e místicas se impunham ao meu espírito, no silêncio completo em que
tudo caíra, e eu deixava a meditação (se é que a não encaminhava) ir manso a
manso rebuscando o segredo dos prazeres visionários de uma religião de fausto e
renunciamento, compreendendo a sua essência, e invejando quase aqueles que sinceramente
os fruíram...
Nisto soaram passos pelo claustro, com
risadas alegres, retinidas, e, abrindo-se a portada que me estava fronteira, um
imenso retângulo de luz viva rompeu a quietação tenebrosa da nave e por ele
desceu uma série de anjos buliçosos, raparigas de elevada estatura, vestidas de
claro, trazendo nas mãos fartos molhos de flores profanas...
Não eram turistas inglesas, como a
princípio supus, quase contrariado, mas criaturas da raça espanhola que,
transpostas as portas do templo, mergulharam sem repulsão na sua atmosfera
mística, e sem turbulência nem indiferença lhe foram percorrendo as capelas,
ajoelhando aqui e além, conforme encontravam alguma santa imagem de mais
particular devoção.
Eram cinco, todas espigadas, flexíveis,
airosas, lindas. Depressa lhes reconheci a origem argentina, porque já vira, a
miúdo, desde a minha chegada a Espanha, outros tipos afins, inconfundíveis, e
sabia que, mercê de condições excecionais de prosperidade, a grande república
sul-americana mandava naquele ano à Europa, a pretexto da exposição universal
de Paris (isto foi em 1889!) grande número dos seus habitantes mais
privilegiados pela fortuna e pela inteligência. Em toda a Espanha causavam
sensação!
Tive ensejo de examinar detidamente as
minhas cinco encantadoras importunas, mas sobretudo aquela que quase se me
ajoelhou aos pés, tão próximo estava o meu banco de um pequeno altar dedicado a
Santa Margarida, o qual se armava na base da mesma coluna a que eu me encostava
e parecia objeto de especial devoção por parte da formosa menina. Que mimosa
carnação, que imensos olhos de veludo, que opulência de cabelo negro, ondeado,
macio! E que ritmo nos movimentos, que graciosíssimas proporções desde o busto
cheio, invertendo, após a cintura longa e flexível a sua curva harmoniosa na
curva dos quadris!
Apesar da fervorosa prece em que parecia
embebida, não lhe escapou a minha muda e ingénua admiração, e duas ou três
vezes os nossos olhares se encontraram. Ao levantar-se julguei até que me
encarava com simpatia e esboçava um gesto de despedida...
Pouco se demoraram e completada a volta
em redor da igreja desapareceram.
Soaram duas horas no relógio da torre,
lembrando-me que o Orion pouco tardaria em partir, e com um profundíssimo
suspiro deixei aquela gruta de enlevo e fui ao hotel buscar as malas.
Antes das 3 já me encontrava a bordo do
Orion, imenso transatlântico deselegante, cujo perfil em forma de abóbora me
explicou o motivo da sua demora; era, com efeito, de pouquíssimo andamento, mas
em compensação aguentava lindamente o mar, como nesta mesma noite o provou na
passagem do golfo de Leão onde, apesar da «tramontana», se dançou até tarde.
No tombadilho reinava a confusão própria
dos paquetes de luxo durante as poucas horas de uma escala interessante, e
principalmente quando se aproxima o momento de largar. Os mercadores ambulantes
de curiosidades locais davam as últimas investidas aos passageiros a fim de
lhes impingir a sua fazenda, que iam enfardando para o regresso à terra; entre
o vapor e o cais havia um incessante vaivém de botes com passageiros e
provisões; a bordo, as famílias numerosas congregavam-se para verificar se lhes
faltava algum dos seus membros, e aquelas a quem eles faltavam, encostadas à
amurada, inspecionavam o cais e a Rambla procurando divisar os retardatários.
Após o indispensável exame do beliche que
me designaram, subi à tolda para não perder o espetáculo da partida, e isolado,
próximo do governo do barco, sentei-me a fumar. Pouco tardou que não visse
aparecer um cavalheiro corpulento, com ares de natural e consciente
importância, suíças «sal e pimenta» e volumoso abdómen, trazendo pelo braço uma
espigada menina de seus catorze anos, ainda de cabelo solto e anáguas, que se
me acercaram buscando assento. As feições da rapariga fizeram-me estremecer,
tanto lembravam as da visitante da catedral, devota de Santa Margarida.
Eram pai e filha, e conversavam em
espanhol com o acentuado sotaque americano, que bem corresponde, no
elanguescido, ao português do Brasil.
– Já era tempo de chegarem – dizia o pai
em tom entre risonho e severo.
– E se ficassem em terra, pai? – advertiu
a menina. – Teriam de tomar o comboio...
– E tu não te zangavas?
– Não sei... – replicou sorrindo; e como
que a pedir desculpa da ingénua observação da filha, para mim sorriu também,
percebendo que eu os ouvia e entendia. A minha simpatia, já desperta,
facilmente correspondeu com outro sorriso próprio para entabular relações.
Conversámos enquanto a rapariga corria à amurada, a perscrutar os cais de
binóculo, e voltava a dar conta das suas investigações. Soube então que vinha
de Buenos Aires; que a sua família era numerosíssima; que três das suas filhas
haviam ido a terra com duas amigas e que a sua demora já o inquietava.
– Ia jurar – observei a fazer-me esperto
– que uma das suas filhas que está em terra é muito parecida com esta menina e
chama-se Margarida...
– Ora essa! É verdade... mas como sabe
isso?...
Ia-lhe apontar a minha assombrosa memória
de fisionomias, o encontro na catedral, e o provável nome de Margarida, pelo
altar que escolhera para as suas devoções, quando a menina exclamou:
– Olha pai, lá estão elas. Já embarcaram
no bote. Anda, vamos à escada esperá-las.
O pai levantou-se sem aguardar as minhas
explicações, mas antes de se afastar fixou-me, como que a recordar as feições
de alguém muito remotamente visto, e suspeitosamente perguntou:
– O senhor já esteve em Buenos Aires?
– Eu, não – respondi com a tranquilidade
e a certeza desafetada de quem diz a verdade.
Mas a filha puxou por ele, levando-o
direito à escada dos passageiros, e a conversa interrompeu-se.
Eu segui-os e fácil me foi verificar que
me não enganara nas minhas conjeturas. No bote que trazia a família do
argentino vinham as cinco senhoras que vira na catedral, e como eu me houvesse
aproximado da escada, misturando-me com os mais passageiros, fácil foi também
certificar-me de que a linda devota se chamava Margareta, por ser esse o nome
pelo qual as companheiras a designavam. Sucedeu ainda que ao pisar o tombadilho
ela se deteve um instante a falar com o pai, que estava de costas voltadas para
mim, e os seus olhos circunvagando distraidamente pararam nos meus, não podendo
reprimir uma cintilação de surpresa, e purpurizando-se-lhe o rosto. O pai notou
a impressão, voltando-se incontinente a ver quem a provocara, e calculando que
fosse eu teve um movimento de viva contrariedade.
Eu, porém, exultava. Sem dúvida Margareta
reconhecera-me e isso enchia-me o peito de confiança, de audácia. E ela era uma
dessas figuras, por assim dizer secreta e zelosamente idealizadas e esperadas
na mocidade, anos a fio, que, encontradas, a alma só trabalha e anseia por
cativar.
E que formosa, agora, ao ar livre, na luz
crua de uma atmosfera empapada de azul, a que dificilmente se sujeitam as
mulheres morenas, sem quebra dos seus encantos naturais.
Morena; eu não sei bem se o mate da sua
tez admitia a classificação de morena. Não era loira, mas se o rosto estava
levemente queimado da aragem do mar, já no pescoço lhe transparecia a suavidade
leitosa das pétalas de açucena. E toda ela tal como a vira na catedral, ou
melhor ainda: alta, espigada, ondulosa, seio farto, cintura breve, olhos como
dois céus...
Outro passageiro, que adregou estar ao
meu lado, rapaz de maneiras quebradiças, armado de óculos redondos, tipo sul-americano
de cor esverdinhada, afectadamente desdenhoso (era secretário do consulado
argentino em Barcelona e mirou-me com inspecionadora impertinência antes de
responder às minhas perguntas) explicou-me que das cinco senhoras três eram
filhas do banqueiro Rodolfi, italiano estabelecido desde rapaz na Argentina e
casado com uma nativa indiana, cuja fortuna passava por ser imensa e quase
assombroso o luxo do seu passadio; que tinha inúmeros filhos: dois já sócios
que, na sua ausência, ficavam gerindo a casa em Buenos Aires, e dois empregados
em Génova e Milão nas sucursais da firma, etc.
Não sei porquê a revelação de tão
abundante prole e de tão esplêndida opulência deu-me um choque desagradável,
como se levantasse insuperável barreira entre mim e Margareta, a qual,
positivamente, me fascinava.
Diligenciei falar-lhe e tive a alegria de
perceber que por seu turno ela procurava aproximar-se. Ainda o barco não
acabara de levantar ferro e já nós havíamos entabulado conversa, ao abrigo de
uma canoa de salvamento, no segundo tombadilho. A hesitação na troca das
primeiras palavras, e o enleio da expressão, foram recíprocos; valeu-nos a
catedral e as impressões colhidas em terra... Mas a conversa pouco durou, pois
logo tocaram para jantar.
Na sala de jantar a numerosa família
Rodolfi ocupava uma vasta mesa oval, e do meu lugar avisto Margareta quase de
frente. Namoro franco, descabelado, à portuguesa... A mãe de Margareta, que
vejo pela primeira vez, tem, com efeito, todo o tipo indiano: cara larga,
malares salientes, cabeleira abundante e crespa, já mais de grisalha, e acabada
a refeição retira-se na companhia do marido que lhe dá o braço.
Logo se armou o baile e eu danço com
Margareta; danço ainda, sem folga nem descanso, embriagado com o calor do seu
corpo, sentindo-lhe, à pressão do meu peito, os seios duros e livres
escorregarem sob a blusa de seda vermelha e finíssima como folha de papoula. De
repente a irmã mais nova aparece, chama por ela, segreda-lhe qualquer coisa e
Margareta para de dançar a pretexto de fadiga. Eu também não danço mais.
Às onze horas ainda nos encontramos a
palrar em redor de uma mesa onde as irmãs e as duas outras companheiras
argentinas escreviam. O secretário consular, despejado que foi o seu saco de
pilhérias, senta-se ao piano e toca noturnos de Chopin, com certo sentimento e
arte. Isso nos empapa de melancolia.
– Porque não dançou mais comigo? –
perguntei por fim em tom doído.
Hesitação.
– Sentia-me cansada... – e logo: – O
senhor já esteve em Buenos Aires?
– Eu?... Nunca estive na América.
– Ah!...
Conversamos com mais desafogo, quase com
intimidade. Eu devaneio, positivamente:
– Quanto desejaria possuir uma recordação
palpável desta viagem... do nosso encontro...
Ela ri da lembrança.
– Recordação?...; nas asas do vento, nas
ondas do mar, como já li não sei em que poeta...
Diz-me então que talvez nos vejamos em
Florença, onde ela e uma irmã vão passar dois meses, no convento de Ursulinas
onde foram educadas. E enquanto refere pormenores sobre o colégio, no qual
viverá com liberdade igual à que teria num hotel, toma uma folha de camélia e
nela escreve lentamente algumas palavras, erguendo, de quando em quando, para
mim o seu olhar profundo, que um sorriso malicioso ilumina. Depois mistura a
folha de camélia no monte de folhas caídas, sobre a mesa, da jarra que a orna,
e atira tudo para o chão. Ao tempo as outras meninas haviam terminado a
correspondência. Levantam-se todas e dadas as boas-noites desaparecem.
Eu precipito-me sobre as folhas esparsas,
buscando febrilmente aquela que me deve assinalar a recordação dessa noite;
entretanto o secretário consular executa, a propósito, um scherzo impertinente,
escarninho...
Achei a folha; nada diz mas basta para me
transportar ao sétimo céu do embevecimento. Ainda hoje a conservo e, coisa
curiosíssima, leem-se-lhe as palavras tão distintamente como na hora em que
foram escritas:
Nel Orione, 18 de abril – Margareta.
No meu camarote encontra-se deitado já,
mas de luz acesa e entretido a ler, um rapaz que eu vira sentado à mesa dos
Rodolfi e supunha ser irmão de Margareta. Encetamos conversa e ele explica-me
que nenhum parentesco o liga ao banqueiro, ao qual vinha recomendado com o
encargo de o meter num colégio da Suíça. Com a entrada em Barcelona dos novos passageiros,
tinham-no mudado para aquele camarote, e já familiar (e loquaz) dá-me
informações, que não peço, acerca dos seus companheiros; depois dispara-me a
pergunta de sempre:
– O senhor já esteve em Buenos Aires, não
é verdade?
Resposta negativa, enérgica, e em tom
aborrecido, mas ele, sem prestar grande atenção ao que lhe digo, observa:
– Margareta é muito linda, não acha? Ela
fez-lhe muita impressão...
Aqui o meu lirismo trasborda, e num
arranco de entusiasmo ponho-me a exaltar os encantos da argentina em termos de
pura adoração.
– Em Buenos Aires não há menina mais
formosa... – ia ele comentando, mas de repente estaca e pondo-se de joelhos
sobre a cama, para espreitar pela rede que, junto ao teto, separa os camarotes,
diz de mansinho: – Oiço vozes e risos... Ah! é Margareta e as irmãs que sem
dúvida nos escutam...
– Pois se escutavam ouviram a verdade –
atalho eu, cheio de falsa coragem, para acudir à confusão em que a descoberta
me mergulhara.
Foi uma completa declaração de amor. Como
seria recebida? Não tenho ânimo para me deitar (é que estou deveras enamorado)
e subo ao tombadilho onde passo quase o resto da noite a fumar e a matutar
sobre o caso. Como é que ela me acolheria no dia seguinte? O céu claro e
estrelado; toda a costa de França se desenha a pontos luminosos, nos arabescos
das estradas e nas rosaças dos povoados; como eu desejaria ir ali procurar
nalguma vila ideal o ninho para os nossos eternos amores!...
Dia seguinte. Margareta cora ao
avistar-me e eu sinto igualmente afoguearem-se-me as faces. Bons-dias tímidos.
Corresponde com ar amável e franco, os olhos postos nos meus.
Depois esquiva-se, parecendo querer
evitar-me. O pai, que vinha perto, não me fala, nem corresponde ao meu
cumprimento, inclinado, humilde, de boné na mão... Isso perturba-me, entristece-me;
mas não me irrita nem indigna.
Daí a pouco subo ao segundo tombadilho
onde a gente nova se diverte brincando. Margareta vem ao meu encontro e sem
mais preâmbulos conta que o pai está persuadido de que eu sou alguém, que
esteve em Buenos Aires, de quem amigos seus tiveram sérios motivos de queixa.
Ela, porém, não acredita, fiada na minha negativa e zomba e ri do engano.
Conversamos confiadamente, já de coração nas mãos, enquanto os outros saltam,
jogam e cantam.
No melhor da conversa surge uma das
irmãzinhas (já não sei qual; eram tantas!) e fala-lhe ao ouvido, lançando-me um
olhar furtivo e curioso. Compreendo que é emissária do pai, a verificar se
estamos juntos. Separo-me sem mais resistência e vou saborear sozinho os sonhos
que despontaram do que ela me disse. São imaginações pacatas, burguesas... e
deliciosas. Era a mulher que eu sempre ideara para companheira da vida toda...
com muitos filhos.
Ao jantar verifico logo que mudaram os
lugares, de modo que Margareta me volte as costas, mas ela (que está bastante
pálida) teima e insiste em retomar o lugar da véspera. Por fim o pai cede,
irritadíssimo, erguendo as mãos ao céu. Trocamos a furto rápidos mas
profundíssimos olhares. À noite não consigo falar-lhe. De resto toda a gente
recolhe cedo, preparando-se para o desembarque, pois o vapor deve chegar a
Génova de madrugada. O meu companheiro conta-me que Margareta e o pai tiveram
uma violenta discussão por minha causa, mas ignora os pormenores. Quando
acordei, após várias horas de vigília, cortada de fantasias paradisíacas e
pesadelos infernais, subo à tolda mas já os não encontro a bordo.
Vou para o hotel Isotta onde, conforme
Margareta me dissera, o banqueiro reservara aposentos. Chego à hora do primeiro
almoço e para evitar mais contrariedades, em vez de ir para a grande sala, onde
julgo que estariam, entro numa salinha próxima. É precisamente aí que toda a
família está já reunida. Foi a aparição do espectro de Banquo. Margareta cerra
os olhos e inclina a cabeça, com todo o jeito de quem desmaia; o pai faz-se cor
de monco de peru e levanta-se arrebatadamente...
Eu bato em retirada e vou tomar o meu
café, tranquilamente, na galeria Mazzini, escolhendo sítio que permite vigiar
entradas e saídas do hotel, e pouco tardou que não visse aparecer Margareta,
com uma das irmãs e as duas outras companheiras argentinas. Sigo-as, e já perto
da catedral, onde vão dar graças a Deus pela feliz viagem, juntámo-nos.
O pai está furioso; nada o convence de
que eu não seja quem ele imagina; mas ela tem absoluta confiança em mim;
lamenta o equívoco esperando que o pai «talvez um dia me venha a estimar
muitíssimo». Porém não vale a pena alimentar-lhe a cólera com a minha presença,
insistência inútil pois que dentro de duas semanas, como já me dissera, nos
poderemos encontrar livremente em Florença. O seu olhar mergulha no meu para me
sondar; depois como que para repassado de melancolia. Eu prometo-lhe que hoje
mesmo deixarei Génova e irei esperá-la a Florença. Ela estende-me as mãos e eu
levo demoradamente à boca a que ainda não tem luva. Sinto que todo o corpo lhe
estremece, e num impulso irreprimível oferece-me os lábios que beijo
sofregamente. Foi um desses beijos que valem por mil promessas formais de
casamento...
Nessa mesma noite me pus a caminho de
Florença, mas fazendo estações em várias cidades de modo a chegar quando
Margareta já lá estivesse. Ansiava por tornar a vê-la, porém estava tão certo
de que a encontraria que me era mais doloroso esperá-la em lugar fixo, e então
às portas dum convento...
O meu primeiro cuidado, naturalmente, foi
ir ali procurá-la, apenas larguei o comboio, quando procurava alojamento e tive
a tremenda surpresa de saber que as meninas Rodolfi já lá não estavam; dois
dias depois de chegarem o pai viera buscá-las...
Na posta-restante aguardava-me a
confirmação da desventura, num bilhete de Margareta participando-me que o pai,
por motivos de ordem financeira, fora obrigado a voltar imediatamente para
Buenos Aires. E nas suas palavras transluzia o ressentimento pela minha pouca
pressa em chegar a Florença.
Dois meses depois recebi um jornal onde
vi, sublinhado a tinta vermelha, que o banqueiro Rodolfi falira; outros
exemplares do mesmo vieram sucessivamente dar comigo em Lisboa e no Algarve.
Todos vinham sobrescritados com a letra de Margareta.
Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me
recambiadas por insuficiência de endereço.
Esperaria ela que eu a fosse buscar à
América? Isso era, precisamente, o que teria feito... se pudesse.
Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem
culpa alguma, ainda hoje a sua lembrança me atormenta como um remorso...
Bougie, janeiro,
1934
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