Agosto 2016 - Biografias Eróticas

A literatura erótica

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A literatura erótica
De que falamos quando falamos de erotismo? 

A palavra gera muitas confusões e a primeira está na tentativa de fazer do erotismo um sinónimo de sexualidade. 

No entanto, de há algum tempo para cá, essa confusão parece ter atingido os media, as redes sociais, a literatura, a opinião pública em geral. 

De tal forma que um livro como As 50 Sombras de Grey vende milhões sob o epíteto de “erótico” como se não fosse apenas uma versão alargada dos muito estimáveis romances cor-de-rosa da Harlequim Books (em Portugal comercializados pela editora Abril sob os nomes de Bianca, Júlia, Sabrina), os Corin Tellado lidos nos anos 60 e 70. 

Pior, é como se atrás dele não existissem milénios de literatura Erótica (assim mesmo, com “E” maiúsculo), do bíblico Cântico dos Cânticos aos poemas de Sapho, da Arte de Amar de Ovídio aos livros de Sade, de Sacher-Masoch a Henry Miller onde o erotismo se manifestava na sexualidade mas não só. 


Manifestava-se na linguagem, nos elementos, na moral, nas verdadeiras transgressões que se faziam aos códigos sociais e religiosos de cada tempo.

Regra número 1: “não há erotismo sem transgressão”, como explica George Bataille nesse ensaio fundamental chamado, justamente, O Erotismo (ed. Antígona).


Brigitte Bardot no filme Desprezo (1963) de Jean-Luc Godard, baseado na novela erótica de Alberto Morávia

Regra número 2: o erotismo, porque ligado à transgressão, está ligado à morte e ao sagrado. Eros não era o deus da sexualidade era o deus das ligações e o seu oposto Tanatos, deus da morte e da desligação. Ora sem Eros e Tanatos não há erotismo.


Maria Schneider e Marlon Brando no filme Ultimo Tango em Paris de Bernardo Bertolucci, uma balada de sexo e morte

Regra 3: o erotismo não se resume aos uso dos órgão sexuais. Erotismo é uma forma de ligação impulsionada por um desejo. O que impulsiona o erotismo é a busca de algo que não se tem, o Outro. Logo, o principal veículo do erotismo é a linguagem, verbal e não verbal. Quem tem uma linguagem pobre vai ter sempre um erotismo pobre. 

Esta relação fundamental entre a palavra e o erotismo está magistralmente tratada por Pascal Quignard no livro Vida Secreta (ed. Notícias) a precisar urgentemente de ser reeditado por cá.

Quem vai mesmo mais longe, quando um novo conservadorismo triunfa em toda a linha, é Manuel S. Fonseca da editora Guerra&Paz que, depois de ter publicado, num só volume, o bíblico Cântico dos Cânticos e o livro licencioso Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, volta agora ao escritor francês libertino, do final do século XIX, início do século XX, para iniciar uma coleção de livros eróticos.

Três filhas de sua Mãe, de 1910, foi traduzido pelo poeta João Moita, e narra as aventuras de um jovem estudante com as quatro mulheres que lhe aparecem como vizinhas, precisamente uma mãe e as três filhas, cada uma com a sua idade, a sua experiência ou inexperiência, os seus desejos. 

Os livros de Louÿs foram considerados muito subversivos e uma dessas “subversões” era a importância que ele dava à sexualidade feminina, como celebrava o desejo sexual das mulheres (e o seu direito a ele), mas também as perversões, a capacidade transgressora, impúdica e libertina das mulheres. 

A Mulher e o Fantoche
 é a sua obra mais aclamada e teve adaptações ao cinema de Josef von Sternberg (com Marlene Dietrich), de Luis Buñuel e de Julien Duvivier. Foi publicada há uns anos pelo Círculo de Leitores.

Três Filhas de Sua Mãe, ou as mulheres ao poder, neste livro de Pierre Louÿs, que abre a coleção Eróticos Guerra&Paz

Eróticos Guerra & Paz terá continuidade apenas em 2018 e o responsável editorial, em entrevista ao Observador, prefere não anunciar ainda os títulos seguintes mas afirma que o seu objetivo “é lançar um conjunto de livros clássicos e contemporâneos, de prosa, poesia e ensaio onde o tema seja o erotismo mas não sejam necessariamente aquilo que o tempo e a história da literatura definem como erótico. 

Não sou um editor convencional e não quero publicar coisas convencionais”. E cita o poema de Herberto Helder, Amor em Visita, como “uma das coisas mais eróticamente grandiosas da literatura portuguesa das últimas décadas”:

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.(…)

Questionamos Manuel S. Fonseca, que além de editor da Guerra & Paz é cronista de cinema no jornal Expresso, sobre se, no tempo das novas tecnologias, quando há uma liberdade sexual impensável há apenas 40 anos, quando basta um click para aceder a conteúdos eróticos e pornográficos na internet, onde a publicidade banalizou os corpos e a sensualidade, se ainda é possível o erotismo?

Acredito que vai continuar a haver pessoas a escreverem e a filmarem o erotismo, ainda que de outra forma. Talvez precisemos de afastar essa ideia de que erotismo tem que ter sexo. Ora o erotismo é também a expressão de um tempo se este tempo é diferente talvez tenhamos que procurar literatura contemporânea erótica que não obedeça ao erotismo como nós nos habituamos a pensá-lo. Penso que agora que as imagens parecem esgotadas talvez os grandes livros eróticos do futuro sejam aqueles onde o principal veiculo de transgressão será a linguagem e não as relações sexuais”.

Grande literatura erótica, para quem só se contenta com muito:

“Cântico dos Cânticos”
“Filosofia de Alcova”, Marquês de Sade
“Novelas Eróticas”, Manuel Teixeira Gomes
“Henry & June”, Anaïs Nin
“A Vida Sexual de Catherine M.”, Catherine Millet
“O Erotismo”, Georges Bataille
“Teoria King Kong”, Virginie Despentes
“Amor em Visita”, Herberto Helder
“Antologia de Poesia Erótica de Satírica”, org. Natália Correia

Seja porque as regras morais das sociedades contemporâneas eliminaram muitos interditos em relação à sexualidade e às ligações entre os corpos e o mundo em redor, seja porque as tecnologias criaram formas de proximidade que já não precisam de presença física, seja porque o novo milénio trouxe um novo puritanismo como reação ao excesso de imagens hiper-sexualizadas que circulam no espaço público e os milennial parecem ter substituído o desejo de encontros sexuais por um novo romantismo, a verdade é que a literatura erótica e o cinema erótico que foram pujantes nos anos 60 e 70 e foram declinando nos anos 80 para quase desaparecerem no novo milénio ou surgirem numa versão comercial kitsch que envergonharia a grande dama do romance cor-de-rosa, Barbara Cartland.

Os homens, que foram os principais produtores de literatura erótica, parecem ter-se recolhido num sofrimento melancólico devido à ascensão social feminina (veja-se o livro de contos de Frederico Pedreira, Um Bárbaro em Casa, ed. Língua Morta que, apesar das inúmeras fragilidades, nos dá um curioso retrato deste mal estar que os homens das novas gerações desenvolveram em relação ao corpo e à sexualidade feminina que sentem como inalcançável). 

Por outro lado, as mulheres parecem ter trocado a sua emancipação social, sexual, financeira, por um definitivo desejo cristão de amor, casamento e uma casa com piscina. 

Ou será que, como questiona o filósofo italiano Emmanuele Coccia, a nossa busca do prazer está hoje quase totalmente dirigida aos objectos de consumo? Será que o erotismo do século XXI só se pode encontrar na nova relação erótica com a comida (e veja-se a abundante literatura que se produz sobre o tema e a ascensão mediática dos Chefs tornados alvo do mais puro fascínio erótico), com marcas de ténis ou gadgets tecnológicos.

Nove Semanas e Meia um dos filmes eróticos que marcaram o imaginário dos anos 80, como Kim Bassinger e Mickey Rourke a darem um uso muito criativo ao frigorífico

Em Portugal, que já produziu muitos e bons escritores e poetas eróticos, vemos que este tema está hoje reduzido (ainda) aos poetas da Geração 61, como Maria Teresa Horta ou Casimiro de Brito, que pouco dizem a quem cresceu nos anos 80 e viu filmes como Nove Semanas e Meia de Adrian Lyne, Lua de Mel, Lua de Fel, de Polansky, Henry & June de Philip Kaufman, quem leu Al Berto, Luís Miguel Nava ou Herberto Helder, quem não idealizou a revolução sexual mas efectivamente a viveu. 

Onde estão os novos escritores e poetas eróticos em Portugal? A Douda Correria acaba de fazer sair Caim e Lilith, um diálogo erotizante entre duas figuras bíblicas, escrito pela poeta Sandra Andrade, que pode marcar o renascimento do erotismo na nova lírica portuguesa.

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ò Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sitios
em que, às escondidas, mergulha as suas setas o Amor…”
[Ovídio, livro II, Arte de Amar]

É certo que na nossa tradição os poetas têm feito mais pelo erotismo do que os romancistas: da lírica trovadoresca a Camões — o que é o episódio da Ilha do Amor (e não dos Amores) senão um grande momento de erotismo?– de Bocage a Florbela Espanca, Natália Correia ou, mais recentemente a Fátima Maldonado, Helder Macedo no seu poema longo Romance ou Nuno Júdice na novela O Complexo de Sagitário.

O romance erótico tem sido pouco cultivado entre nós com algumas exceções, como o erotismo relutante de Eça de Queiroz, em especial no Primo Basílio, as Novelas Eróticas de Manuel Teixeira Gomes, ou O Amor é Fodido de Miguel Esteves Cardoso.

Depois há toda uma escola de romancistas cuja capacidade de trabalhar o erotismo redunda normalmente em desgraça ou apenas em mau gosto como os casos famosos de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares ou Hans Nurlufts (pseudónimo literário de João Soares).

Os Sonhadores, 2003, o tabu do incesto em versão light por Bernardo Bertolucci

Como nota Pascal Quignard em
 Vida Secreta, a boca e os olhos são os mais importantes órgãos do erotismo. Os olhos por onde entram as imagens que vão alimentar o nosso imaginário e a boca, que recebe o alimento e a linguagem (curiosamente o latim mostra como estas ligações arcaicas mama (seio e mãe) e ama (a que cuida/amor). 

Ambas as palavras com vários “a” e “o” redondos como a boca do bebé que recebe a comida e como os primeiros sons que a sua garganta emite antes de dominar a verbalização das palavras.

Não obstante a escassa produção de romances eróticos em Portugal, há por todo o mundo obras primas que construiram o imaginário sobre o erotismo. Desde o oriental Kamasutra, a outros menos explícitos mas não menos transgressores, como A Arte de Amar, de Ovídio, pai de toda a literatura erótica Ocidental, a obras como Lolita de Nabokov, A Morte em Veneza de Thomas Mann, Pantaleão e as Visitadoras de Mário Vargas Llosa, A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro, Axilas & outras histórias Indecorosas de Rubem Fonseca, As Sobrinhas da Viúva do Coronel , de Guy de Maupassant, A História de O de Pauline Réage, pseudónimo de Anne Desclos… 

Não há, portanto, desculpa para nos termos tornado analfabetos eróticos. E deixamos sugestões, do romance à biografia, do ensaio à poesia.


"CÂNTICO DOS CÂNTICOS"




Cântico dos Cânticos é um momento de apoteose poética, onde o sagrado e o profano convivem na mesma exaltação do encontro erótico entre os corpos. Obra que se tornou símbolo maior do erotismo sexual, religioso e amoroso, onde se evoca a nostalgia do momento em que os corpos não estavam para sempre divididos e entregues a uma solidão ontológica inultrapassável. Onde se evoca o segredo, a busca, a ausência e onde o erotismo é, antes de tudo, a tentativa de encontrar o absoluto no cerne de cada ser.

"FILOSOFIA DE ALCOVA"

A Filosofia de Alcova, do Marquês de Sade, uma edição da Antígona

Filosofia de Alcova, publicado em 1795, não é “p’ra meninos”. Que é como quem diz, não é para quem torce o nariz às pulsões mais violentas, agónicas e mortais que fazem parte do humano. Não é certamente para quem considera, como Rosseau, que o Homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. A Filosofia de Alcova, mais do que um livro erótico sobre a educação perversa que recebe a jovem e pura Eugénia, é um livro político que influenciou profundamente autores como Freud, Maurice Blanchot, Pierre Klossowsky. Sobre ele escreveu o poeta Paul Éluard: “Sade quis devolver ao homem civilizado a força dos seus instintos primitivos, quis desembaraçar a imaginação amorosa dos seus próprios objetos. Julgou que daí, e só daí, nasceria a verdadeira igualdade(…)”


"NOVELAS ERÓTICAS"


As Novelas Eróticas que o ex- presidente da República Manuel Teixeira Gomes escreveu depois de se exilar na Argélia. Edição Relógio d’ Água
Uma das coisas mais eróticas destas novelas de Teixeira Gomes é a Língua Portuguesa. A mestria com que ele usa as palavras, o ritmo, faz confluir o mundo interior e exterior, como funde o explícito e o implícito, o manifesto e o latente. Nestas histórias curtas, publicadas pela primeira vez em 1935, encontramos a celebração da beleza e juventude dos corpos masculinos e femininos mas também dos elementos, do cosmos e do caos. O erotismo, e Teixeira Gomes compreendeu-o tão bem como Bataille está intimamente ligado à morte, às festas pagãs, à violência.


"HENRY-JUNE"
“Henry & June” retrata a relação da escritora francesa Anaïs Nin com o escritor Henry Miller e a sua mulher June
Este livro é apenas uma parte dos diários eróticos da escritora francesa Anaïs Nin e retrata o envolvimento amoroso da escritora com Henry Miller, outro autor fundamental da literatura erótica, e com a mulher deste, June. Henry & June, que deu origem ao filme homónimo é maravilhosamente escrito, colocando o enfoque na busca feminina do prazer que se faz na ultrapassagem de interditos vários entre eles a homossexualidade.


“A Vida Sexual de Catherine M.”



Em 2001, o entusiasmo de Eduardo Prado Coelho convenceu-nos a ler a biografia sexual da famosa curadora e crítica de arte francesa no livro A Vida Sexual de Catherine M. A obra não é grande coisa, convenhamos, mas serviu para uma geração de jovens provincianos descobrirem como uma mulher pode viver de forma verdadeiramente libertina e sobretudo dos prazeres do sexo em grupo. Foi um bestseller em vários países.


“O Erotismo”, Georges Bataille

“O Erotismo”, de George Bataille, escritor, filosofo, antropólogo francês. (Edição ilustrada na Antígona)

Este ensaio de George Bataille, escritor e filósofo francês, devia ser obrigatório para qualquer pessoa que pense escrever — e não somente um livro, um conto ou um poema erótico, mas quem quer pensar a cultura, a arte, a política. O erotismo é uma viagem histórica, social, antropológica e filosófica às origens do erotismo nas primeiras comuniddaes humanas, na sua relação com o aparecimento no homem de uma consciência simbólica, uma consciência do sagrado, do trabalho, da guerra, etc. Tributário dos estudos de Marcel Mauss mostra como o erotismo está sempre ligado aos interditos e à sua transgressão.


“Teoria King Kong”, Virginie Despentes

“Teoria King Kong” é um ensaio polémico sobre a sexualidade (Editora: Orfeu Negro)
Embora seja um livro que em grande parte revisita as teorias de Bataille, este ensaio da polémica cineasta francesa Virginie Despentes, saiu recentemente em Portugal na Orfeu Negro, é já um marco nos estudos de género, e apesar da má fama da sua autora não é um livro siderado pela histeria feminista. Virginie aborda a sexualidade feminina e masculina e a construção de interditos e preconceitos que impossibilitam que homens e mulheres tenham uma vivência livre do seu erotismo. Um dos pontos de partida do livro está nas vivências tidas pela autora durante os anos em que trabalhou como prostituta.


“Amor em Visita”, Herberto Helder

“O Amor em Visita”, primeiro livro de Herberto Helder pode ser lido no seu “Ou o Poema Contínuo”
É provável que a tribo cada vez maior de “donos” de Herberto Helder fique chocada por esta poesia ser considerada erótica. Mas certamente só quem tem uma visão exígua do erotismo e da poesia do autor pode recusar-lhe esta dimensão. O corpo, o órgão sexual feminino, o sangue menstrual e a sua relação com os astros, as constelações, os ritmos da natureza formam uma grande tessitura erótica, no sentido de Eros, como deus tutelar das ligações cósmicas. Se no Amor em Visita esse fulgor erótico é claro e pujante, noutros poemas da sua obra encontramos de novo esta expressão profunda de vida e morte, da religiosidade através da sexualidade. É a própria linguagem que transgride os seus códigos e o corpo da língua portuguesa é levado aos limites.


“Antologia de Poesia Erótica de Satírica”, org. Natália Correia

Antologia organizada pela poeta Natália Correia e que a levou ao banco dos réus. (Uma edição Antígona/Frenesi)
Esta antologia que atravessa toda a história literária portuguesa é também um marco na resistência e luta contra o fascismo. Publicada pela primeira vez em 1966, levou Nátalia Correia e o seu editor Ribeiro de Mello, da Afrodite, a um processo em tribunal que resultaria na sua condenação. Começando no século XIII vai até ao século XX e engloba autores inesperados como Antéro de Quental ou Fernando Pessoa. Esta antologia tem ainda um cultíssimo prefácio de Natália Correia precisamente sobre o erotismo.

(Excerto de um artigo do observador neste link https://observador.pt/2017/08/27/a-literatura-erotica-ainda-e-possivel-no-seculo-xxi/ que poderão ler mais desenvolvido.




O poder erótico em Cartas do Padre António Vieira e Cristina

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O poder erótico em Cartas do Padre António Vieira e Cristina

Retirado da Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014, sobre livro de Gloria Kaiser com levantamento histórico sobre o relacionamento erótico do Padre António Vieira e Cristina, rainha da Suécia, com excertos de cartas absolutamente fantásticos.

"Nós sabemos que por meio das palavras podemos superar
tudo; com palavras nós vencemos qualquer escuridão, pois
nada é mais forte e poderoso que a palavra."

Padre António Vieira 




O PODER ERÓTICO

Diário e cartas de Cristina Vasa, rainha da Suécia,
e do padre Antonio Vieira
Gloria Kaiser

O meu livro trata do padre António Vieira e do ano de 1689. Nessa época António Vieira tinha 81 anos de idade e vivia em Salvador, Bahia, Brasil, na Quinta do Tanque. 

Estava trabalhando nos seus famosos sermões e vivia recordando os cinco anos que passou em Roma (1669-1675), assim como a sua amizade com Cristina da Suécia. 

Uma amizade que uniu dois seres iluminados da história. A essa amizade devemos vasta correspondência, que contém algum grau de colorido erótico — o quanto, isto fica por conta da interpretação do leitor.

Ao começar a pesquisar sobre António Vieira, eu iniciei um diálogo com ele. E trata-se de um diálogo sem fim, já que toda uma vida não é suficiente para ler, interpretar, decodificar e, quem sabe, entender toda a sua obra. 

"O sitio da mulher morta"

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"O sitio da mulher morta"

Novelas Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes






O SÍTIO DA MULHER MORTA


Já totalmente impossibilitados de trabalhar, os Elisiários, meus velhos caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam na povoação vizinha, a Figueira. Mas como eu lhes desse uma pensão, que embora insignificante os ajudava a viver, mostravam-se-me gratos, e iam amiúde ao Convento (era assim designada a propriedade, desde tempos imemoriais, por encerrar o único convento que existia léguas em redor), não para fazer as suas devoções, mas para observar o que lá se passava e dar-me conta do que espiolhavam se alguma vez adregava encontrarem-se comigo. Tinham sido eles que me indicaram para sucessor o António Sagreira, dono de duas courelas minhas estremenhas, rendeiro de várias várzeas que me ficavam fora de mão, e habitual e principal empreiteiro do serviço das belgas que transformam os matos em terras de semear.


A indicação surpreendera-me bastante, porque havia entre eles uma antiga rixa que não admitia tréguas, porém depressa compreendi as razões que a motivaram: o Sagreira era implicativo e pechoso, e tinha três filhos valentões que lhe reforçavam a argumentação, mesmo quando sofística; assim os meus velhos caseiros se vingavam dos vizinhos com quem haviam andado às bilhardas, e ao mesmo tempo impingiam-me um sucessor que pelas suas malas-artes me faria lamentar a ausência dos reformados.

"? (interrogação)"

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"? (interrogação)"



Novelas Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes


Manuel Teixeira-Gomes


Novelas Eróticas


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O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Esmirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projetara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. 



A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico.

E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existirá ela ainda?) que levantaram sobre o cais, à semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava.

"Cordélia"

21:24 0
"Cordélia"

Novelas Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes


Manuel Teixeira-Gomes


Novelas Eróticas



CORDÉLIA

Mais n'est-tu pas toi-même un
jet d'eau qui s'irise
Et qui vers l'infini s'élance et
puis se brise?...

PHILÉAS LEBESGUE

As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência. Gente honrada, trabalhadora e bastante culta, mas sobretudo orgulhosa das virtudes da sua raça e belezas da sua província, do seu trato me veio o conhecimento dos seus poetas, e a curiosidade de lhe visitar a pátria e ver-lhe os monumentos. 

Numerosas foram, no decorrer da vida, as minhas excursões pela Catalunha, dando-me ensejo de assistir ao extraordinário desenvolvimento da sua capital a que me afeiçoei e onde repetidas vezes fui embarcar para Itália. 

Em uma dessas ocasiões, esperando vapor que não aparecia, a minha demora ali foi relativamente grande, permitindo-me penetrar um pouco mais na compreensão do complicado problema catalão, social, religioso e político, ao passo que vagarosamente, e quase sempre a pé, ia explorando os curiosíssimos arredores da grande cidade.

"Margareta"

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"Margareta"


Novelas Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes

António Teixeira-Gomes


Novelas Eróticas 1ª Ed


MARGARETA

       Em matéria de viagens fui sempre, por instinto e reflexão, refratário a programas; contudo, na minha primeira ida à Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.
       Desta vez tendo forçosamente – a obrigação sentimental! – de passar por Sevilha, deliberei tomar ali algum vapor costeiro que me levasse a Barcelona, onde procuraria transporte direto a Génova, seguindo logo para Florença, na resolução de permanecer em território toscano durante a primavera.

9 poemas eróticos de António Botto

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9 poemas eróticos de António Botto


António Botto

António Botto (1897-1959) foi um poeta, contista e dramaturgo português. Fez parte da Segunda Geração Modernista de Portugal.
No domínio poético, António Botto cultiva o lirismo delicado e puro, oscilando sempre entre duas extremidades. Enquanto uns versos exprimem valores eróticos e sensuais, outros deixam transparecer o caráter social e realista da modesta sociedade lisboeta. Nos contos, acrescenta um caráter moralizante. Dedica-se à prosa de ficção, escrevendo narrativas para adultos e crianças.
António Botto colaborou com várias revistas e jornais, como “Athena”, “A Águia”, a “Contemporânea”, a “Presença”, entre outras. Em 1933 escreveu a peça de teatro, em três atos, “Alfama”. Publicou ainda: “Ciúme” (1934), “Sonetos” (1938) e “Ódio e Amor” (1947). Nesse mesmo ano, depois de levar uma vida desregrada e boêmia, frequentando a região das docas marítima, onde buscava a companhia de marinheiros, partiu para o Brasil.

1. Anda, Vem
Anda, vem... por que te négas,
Carne morêna, toda perfume?
Por que te cálas,
Por que esmoreces
Boca vermêlha, - rosa de lume!

Se a luz do dia
Te cóbre de pêjo,
Esperemos a noite presos n'um beijo.

Dá-me o infinito goso
De contigo adormecer,
Devagarinho, sentindo
O arôma e o calôr
Da tua carne, - meu amôr!

E ouve, mancebo aládo,
Não entristeças, não penses,
- Sê contente,
Porque nem todo o prazer
Tem peccado...

Anda, vem... dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos;

Tenho Saudades da vida!

Tenho sêde dos teus beijos! 

2. A Noite Suavemente Descia

A noite
Suavemente descia;
E eu nos teus braços deitádo
Até sonhei que morria.

E via
Goivos e cravos aos mólhos;
Um Christo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco rôxo, cinzento,
Rendas, velludos puídos,
Perfumes caros entornados,
Rumôr de vento em surdina,
Insenso, rézas, brocados;
Penumbra, sinos dobrando;
Vellas ardendo;
Guitarras, soluços, pragas,
E eu... devagar morrendo.

O teu rosto moreninho,
Eu achei-o mais formoso,
Mas, sem lagrimas, enxuto;
E o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Estava todo coberto de lucto.

Depois, anciosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadía;
Beijámo-nos doidamente...
- Era dia!

E os nossos corpos unidos,
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram... e assim ficaram!... 

3. Quem é que Abraça o meu Corpo

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que falla da morte,
Docemente, ao meu ouvido?

És tu, Senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido. 

4. Se Me Deixares, Eu Digo

Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente;
E, n'este mundo de enganos,
Falla verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;
Mas, tem cuidado commigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrario a toda a gente. 

5. Tenho a Certeza de que Entre Nós Tudo Acabou


Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
Deixal-o!
Bemdita seja a tristesa!
- Não ha bem que sempre dure
E o meu bem pouco durou.

Não levantes os teus braços,
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te... vou partir.

E se um dia te lembrares,
Dos meus olhos côr de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade,
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
N'aquella tarde cinzenta...

Adeus!

Quem fica soffre bem sei;
Mas soffre mais quem se ausenta!... 

6. Ouve, Meu Anjo

Ouve, meu anjo:
Se eu beijásse a tua pél?
Se eu beijásse a tua boca
Onde a saliva é um mél?...

Quiz afastar-se mostrando
Um sorriso desdenhoso;
Mas ai!
- A carne do assassino
É como a do virtuoso.

N'uma attitude elegante,
Mysteriosa, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febríl.

Na vidraça da janella,
A chuva, léve, tinia...

Elle apertou-me, cerrando
Os olhos para sonhar...
E eu, lentamente, morria
Como um perfume no ar! 

7. Tu Mandaste-me Dizer


Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
- N'esse dia...

Pintei de negro os meus olhos
E de rôxo a minha boca.
As rosas eram aos mólhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
- Que fôra delgado e bello!
O perfume mais extranho e mais subtil;
E um brocado rôxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus hombros florentinos,
Cobértos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em fébre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas scintillavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabello,
Em ondas largas, cahia,
Na minha fronte
Ligeiramente sombría.

Estava pallido e dir-se-hia
Que a pallidez aumentava
A minha grande belleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.

A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentádo, olhando
O meu vulto reflectido
No espelho de crystal;

E afinal,
Nem frescura, nem belleza,
No meu rôsto descobri!

- Ó morte, não me procures!
E tu, meu amôr, não venhas!...
- Eu já morri. 

8. Foi n'uma Tarde de Julho


Foi n'uma tarde de Julho.
Conversávamos a mêdo,
- Receios de trahir
Um tristissimo segrêdo.

Sim, duvidávamos ambos:
Elle não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguem.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lagrimas se toldava...

Mas, a duvida perdeu-se;
Fallou alto o coração!
- E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.

E, aos beijos, ébrios, tombámos;
- Cheios d'amôr e de vinho!

(Uma suplica soáva:)

«Agora... morre commigo,
Meu amôr, meu amôr... devagarinho!...» 

9. Andáva a Lua nos Céus


Andáva a lua nos céus
Com o seu bando de estrellas.

Na minha alcova,
Ardiam vellas,
Em candelabros de bronze.

Pelo chão, em desalinho,
Os velludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.

Elle olhava-me scismado;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e núa
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delirio
Procurou ávidamente,
E ávidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para Elle,
E, encostado ao meu hombro,
Fallou-me d'um pagem loiro
Que morrêra de Saudade,
Á beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombría.

Déram-se as bocas n'um beijo,
- Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecêra cansado
E que eu beijára loucamente
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho... até cahir.