Nunca se está completo e tu sabes - BIOGRAFIAS ERÓTICAS
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Nunca se está completo e tu sabes

Perdeu-se o tempo na minha cabeça e na minha consciência, devem ter passado, não sei, dez anos desde o acidente, não sei mesmo, se calhar mais, houve um momento certamente em que decidi que não tinha importância, a passagem do tempo, digo, pelo menos enquanto fosse jovem e não sentisse o peso da idade.

Para um paraplégico, sempre me perguntei se isso seria importante. Se iria sentir algo mais em velho do que já sinto hoje. Ser dependente.

Meu Deus, que não acredito em ti, que não existes, eu sei, o tempo que não sinto mas que perco a pensar nestas coisas. 

Nesta casa imensa que me foi deixada em testamento e que percorro quase todos os dias, os corredores sombrios, a casca das paredes que começa a cair, na minha cadeira de rodas, valha-me o pouco passado amealhado de que ainda se alimentam os meus sonhos e pensamentos.

Passado que renovo e reciclo como este som que estou a ouvir e de que me alimento, toma atenção Deus, meu único confidente e talvez ouvinte neste silêncio em que habito, gosto de orações, digo-te, para ficar ainda mais triste do que me sinto todos os dias.

Ele ainda não chegou! e estou preocupado, não me ligou e não disse nada!! 



É estranho, nunca se atrasou, ele sabe da minha ansiedade, estou mais dependente dele do que das minha pernas, posso arrastar-me, posso gritar por auxilio, mas não posso existir sem o meu amigo, é ele que me dá o sentido.

O resto que me rodeia, o que vejo da minha janela, e que vejo na minha ciência e imaginação, não me serve, é mais uma massa translúcida, uma substância gelatinosa, move-se sem propósito ou ensejo, concentra-se e dilata-se, e ao menor raio ou rasgo, desfaz-se em água e evapora-se.

O mundo, a existência, é feito de nada, as palavras que nos conduziam e formavam desvalorizaram-se, o que era ouro, nesta alquimia negativa, transmutou-se em lata, de que serve correr muito quando se é conhecido o destino, queremos assim tanto chegar ao fim.

Estou com fome e o Chris ainda não chegou. Não tenho comida em casa, já liguei para saber dele e o telefone parece estar desligado. 

É o que dá habituares-te a uma pessoa que te faz tudo, se ele te falta, ficas completamente indefeso, merda, quando aparecer vou ter que mostrar-lhe o quanto estou irritado por ser tão indisciplinado, ele sabe que não posso suportar a falta dele, naquele momento, naquela hora, e merda, não é o que me traz, é a presença dele.

Deus, desculpa, contigo só falo em último recurso, depois mesmo de falar contra uma parede, e antes só mesmo com o Chris.

E lá fora as ruas estão vazias, parece que o mundo morreu, o conteúdo do mundo, o seu miolo, essa doença que falam por aí, e que assola a natureza com a sua violência, um inverno solar, uma onda térmica, da minha janela só vejo as cascas do mundo, se não se transformarem em pó talvez sejam encontradas debaixo dele daqui a mil anos.  

Está tudo parado? Não, está tudo na mesma, apenas não há movimento.

O Chris apareceu-me como um empregado, a pessoa que a minha mãe ainda viva arranjou para me movimentar no espaço de uma casa imensa como um pedaço de carne. Há dez anos levanta-me, veste-me, deita-me, dá-me de comer, conhece o meu corpo nu, as minhas intimidades e fraquezas, é os meus braços e as minhas pernas.

Dizia a minha mãe que tinha de ser um homem. Todos os dias estes anos ele sai à noite e regressa de manhã. Podia ser eu, mas não, ele tem a sua família. 

Um dia perguntei-lhe "porquê Chris, porque razão estás comigo há tantos anos, porquê te sujeitas à minha indisposição, à minha agressividade, porque não vives outra vida? Isto basta-te?".

A resposta dele fez-me chorar, em silêncio, e escondido até de ti Deus, faz-me ainda chorar, ele disse que eu não precisava de pernas para voar, que ele entendia o mundo através dos meus olhos, que era uma forma de me amar, e que, mesmo que eu quisesse, que o forçasse, jamais me deixaria só.

E aqui estou eu sentado à janela à espera do meu amigo, chuvisca lá fora, e não sei se desta vez ele chega a tempo.

3 comentários:

  1. /////
    Uau, esta história deixou-me KO... Quantos não estarão em solidão neste tempo de quarentena, quantos não depende de outros e agora está quase tudo restrito. Mais do que nunca as relações pessoais são as mais importantes. Parabéns pelo texto.
    Peço permissão para publicar no blogue.

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    1. Autorizado, ficamos satisfeitos de ter gostado. Acrescento, muitos estão quase sempre em solidão, independentemente de quarentena, provavelmente é nestes momentos que nos lembramos mais dela.

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    2. ////
      Obrigado. De facto, quantos por este mundo fora não estarão na solidão, habituados que estavam a andar na rua, sua principal distracção, convívio com algumas pessoas, o contacto pessoal, enfim um rol de situações que quase ninguém fala, parece assunto tabu...
      Que se nos resta alguma esperança, que pensemos nesses com solidariedade. Abraço.

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