Contos eróticos de Natal – Pobres mais do que o normal - BIOGRAFIAS ERÓTICAS
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Contos eróticos de Natal – Pobres mais do que o normal

São horas de sair e ir para casa. Por hoje chega de trabalho. Devo ser uma dessas pessoas que tem o privilégio de ter o trabalho perto de casa, são só quatrocentos metros a caminhar por uma rua plana e tranquila e chego ao lugar onde me escondo. 

Hoje que penso nisso, o caminho que faço é o mesmo desde há cinco anos, dia após dia, sempre em silêncio, porque é de silêncio que tem sido a minha vida, já mal me relaciono com humanos. 

De seres vivos, só o meu gato, e, lembro-me agora, a voz de um sem-abrigo, por quem passo todos os dias, um individuo mal-educado, feito de trapos, cabelo, e dois olhos negros, costumo dar-lhe uma moeda de um euro e, quando percorro alguns metros, o troco que dele recebo é um grito: “sua puta”. 

Já não me surpreende, eu insisto em dar a moeda, e segundos depois ele chama-me puta, mas penso eu, os pobres são mal-agradecidos, mas este, porra, ainda me dá humanidade, coisa que se não fosse ele e o meu gato, eu já me tinha esquecido. 

Nunca mais recebi um contato da minha família ou de ninguém, histórias do passado, mas reconheço, também não tenho ligado, e não sei, estou naquele pico, ou, quem sabe? naquele fundo, em que se perdem todos os vínculos, ora com quem conhecíamos, ora com quem conhecemos, e estamos sozinhos. 

Mas eu estou mais sozinha que os outros, mais do que aquele sem abrigo, eu bem o vejo da minha varanda, lá em baixo abrigado na cobertura, não tem o respeito de quem passa, pelo exemplo que mete medo, mas que por isso é sentido, há um desespero que ninguém quer, que fere os olhos e o pensamento. 

A mim ninguém sente, o mundo é um fantasma, uma névoa que tolda, por isso a minha relação com o sem-abrigo, é mais forte do que nunca, que prazer eu tenho por dar-lhe dinheiro, só para ele me chamar puta. 

Este já não é pobre porque não tem nada, nem há ninguém que precise dele, porque a ninguém ele faz falta, um inútil que se arrasta pelo mundo, pior que um pobre de que precisamos, se não fossem os pobres como fazíamos? então hoje que penso nisso, os pobres fazem falta!!, senão como vivíamos? Quem nos lavava a roupa? Ou nos apanhava o lixo? O que é mau mesmo, é os pobres deste mundo, serem mais pobres do que o normal. 

Mas este inútil sem-abrigo, que já não é pobre nem normal, para mim ainda tem préstimo, eu dou-lhe dinheiro para saber que existo, que tenho corpo, pernas e sangue, pensei hoje nisto, eu ainda tenho que lhe dar mais dinheiro, sei lá? talvez ele me chame qualquer coisa mais do que puta. 

Há uns dias, eu resolvi dar cinco euros, eu lembro bem que dei alguns passos, estava ele sentado no seu canto, quando ouço aquela voz profunda: “foda-se!! que belas pernas”. 

Ainda não sei o que preferia, se ter umas belas pernas ou ser puta, estava indecisa de dar mais dinheiro, a curiosidade que me roía, aumentei então o preço, coloquei no chão uma nota de dez euros, e depois de alguns metros, soou a trombeta do homem: “caralho!! que belo cu”. 

Toda a mulher sofre do mesmo mal, saber se para os homens é tudo igual, mesmo sendo um sem-abrigo que não interessa, eu precisava saber, eu precisava saber, se só a mim ele tratava mal. 

Da minha varanda onde o observava, eu fiz a estranha descoberta, muito amarga porque sou discreta, será essa a razão porque me escondo, das pessoas e de tudo o que comprometa, o diabo do sem-abrigo, só a mim chamava puta, e só a mim dizia, que tinha um belo cu e umas belas pernas. 

Muitas mulheres belas passavam por ele, elas davam-lhe dinheiro, mas ele nem as via, que vergonha a minha deviam elas pensar, só de um sem abrigo sem préstimo eu recebo elogios, uma pulsão nervosa atingia-me as fibras do meu corpo, seria um jogo daquele homem? Jogar e brincar com os meus sentidos? 

Se eu tinha tido alguma curiosidade, agora ela era em mim febril, pensava eu, o que diria ele se eu desse mais dinheiro, primeiro eu era puta, depois eu tinha umas boas pernas e um bom cu, o que teria eu agora? Se eu desse ainda mais dinheiro? 

O tempo passou, eu fui metendo ainda mais fichas no jogo, eu dei então tudo o que podia, aproximei-me do canto dele, onde deixei cinquenta euros, agachei-me com respeito, só pensei depois, ele deve ter visto as minhas cuecas, que não esperou e sussurrou bem perto: “adoro a senhora, deve ser louca a foder, eu comia-lhe essa cona toda”. 

Quando ele disse aquilo, porra!! que para mim foi um choque terrível, eu levantei-me a correr, arranjei a saia que tinha descaído, e sempre em passo acelerado, fui para casa a voar. 

Voltei para a minha varanda, eu tive que beber um chá calmante, dei festas no meu gato a precisar, mais eu do que o bicho precisamente, a minha respiração estava ofegante, aquela nota de cinquenta euros era o culminar, o que diabo ele diria por mais dinheiro? se ele já me fodia a cona toda por aquele preço. 

Deveria eu fugir daquele sitio? Escolher outro caminho? mas se ele era a minha humanidade? Sem aquele miserável tudo perdia sentido, a única utilidade dele era ser inútil para os outros, dizer ele “bom dia” ou chamar-me “puta”, começava a ser o que eu mais queria. 

Eu resolvi então passar mais vezes, da primeira vez deixei um euro, e logo depois ouvi a grosseria “puta, já não te fodo a cona toda”, no dia seguinte, foram cinco euros, e ouvi “és tão boa, que belo cu”, as outras mulheres ouviam e abriam a boca, mas que escândalo era o sem-abrigo, havia ali alguma inveja? 

Amanhã é Natal, e eu estou aqui no meu gabinete, de manhã atendi alguns clientes, desses formais a quem ligo o necessário, sorte a minha que só a mim dei presentes, mas não me esqueci corri ao banco, levantei cinquenta euros para o sem-abrigo, quando passar quero ouvir aquilo, porque espero desde que me levantei. 

Hoje eu vesti uma saia curta, logo à noite quando me aconchegar no gato, no calor da minha casa e lareira, eu quero sorrir com aquela frase, de um homem rude com barba de urso, enrolei a nota na minha mão e sai para a rua fria e gelada, a andar os quatrocentos metros até casa. 

Eu parei junto dele e vi que o sitio estava repleto, muita gente fazia compras de comida, pensei eu naquele momento, para quê? se a festa é sobre alguém que nasceu pobre, numa manjedoura de palha ao lado de uma vaca e uma ovelha.

Ninguém o via sem ser eu, baixei-me perto do sem-abrigo, e disse num som baixo, num sussurro intimo de quem entende, “tome a nota, eu também me sinto uma sem-abrigo, e ah, não precisa de me vir à cona”. 

Quando me ia a levantar, a mão dele puxou-me o braço, e ouço a voz rouca do frio, “você é tão bonita, mas só eu vejo”. 

Eu sorri e voltei ao meu caminho de rotina, não sei se estava frustrada, teria eu preferido “fodo-te a cona toda?”, não era mais violento ainda dizer ele que eu era bonita? choraria logo à noite e sentir-me-ia ferida, é que dizer que me ia à cona, isso afastava, mas aquilo? unia? 

Eu afagava o pelo do meu gato quando as gotas de chuva fustigavam as minhas janelas, de dentro de casa o calor embaciava os vidros, de cá de cima do alto da minha casa, eu olhei para a cobertura lá em baixo e ele lá estava, aninhado em si próprio e na sua miséria, assim tão perto de pessoas que festejavam. 

Uma espécie de decisão passou-me nos olhos, daquelas que escolhi não ter há muitos anos, eu vesti a gabardine e corri pelo meio da chuva, “vem comigo”, disse, que estranho ele responder “não estou bem aqui onde não incomodo”, quase o arrastei para minha casa. 

Eu olhei para a bola de pelo enrugada em causa, um homem escondido na barba e na roupa velha, um espectro de ser humano na minha sala à minha frente em pé, pensei eu, a minha vontade de pessoa útil queria limpá-lo, fazer dele uma pessoa pobre normal, mas que frenesim e direito tenho eu. 

Eu perguntei, “não sei o seu nome? o meu é Alice”, ele respondeu “o meu é Lucas”, e continuei, “se o Lucas quiser tomar banho, aquecer um pouco, tenho aí roupa do meu antigo marido, faz como tu quiseres, ah, e não precisamos de foder, hoje fazemos só companhia um ao outro”. 

Ele sorriu, e ali ao junto de mim na minha sala, largou a roupa velha que tinha, toda até ficar nu, num corpo marcado como o meu, de indiferença voluntária ou não, e perguntou “onde é o duche? talvez a Alice mude, entretanto, de vontade, lá por ser Natal, eu fodia a tua cona toda”. 

E eu que queria dar-lhe banho, untá-lo com um óleo que comprei de propósito, beijar-lhe as feridas da vida, mas que diabo que é isto de ser mulher?

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