Conto vitoriano - afeição ciumenta - BIOGRAFIAS ERÓTICAS
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Conto vitoriano - afeição ciumenta

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Aconteceu num impulso. Deve ser o meu espírito que vos conta isto porque a história é antiga. Há dias que não me levanto da minha poltrona desde que o Júlio entrou em minha casa para me dizer que se ia casar. A filha de um comerciante rico, uma rapariga roliça e com sardas, que fez ele dizer, “tu sabes, um dia teria de acabar”.

Quando o ouvi, o meu sentimento de inexistência, como se o meu corpo fosse feito de nuvens, caiu aterrando numa realidade ruidosa, feita de cavalos carruagens e esterco, das ruas e das pessoas que se abrigam da neve e do vento, as mulheres arrastando grandes saias vitorianas, os homens com os chapéus altos e gabardinas negras.

Ainda não acreditava, “mas é a sério, vais mesmo casar? Pensava que me amavas?”, ele não perdeu a calma, na doce voz que eu conhecia, “eu amo-te, tu sabes que eu te amo, mas não sejas ingénuo, o que o mundo ia pensar?”, depois ele saiu.

E foi esse o impulso, de ir visitar a minha tia na sua casa de campo que é mais um solar, extensão da sua casa da cidade, no interior um salão todo forrado de reposteiros espessos, poltronas com motivos florais, e discretamente perfumado, e onde eu uns anos antes conhecera o Júlio.

Um fogo vivo flamejava numa grande lareira, a cujo canto, uma só lâmpada derramava uma luz branda, suavizada por um abajur de renda antiga, sobre as duas pessoas que conversavam, eu e a minha tia.

Ela é uma mulher de cabelos ruivos, uma dessas mulheres mais velhas adoráveis, de pele onde não se vêm rugas, fina como papel de seda e perfumada, de um olhar perspicaz a que ninguém escapa, a irradiar alegria por a visitar mesmo sabendo do meu motivo especial.

Ela perguntou, “então o Júlio já se casou? E como é ela?”, eu respondi, “já, é como uma pequena porca rosada”, e ela continuou, “e tu como te sentes?”, eu sussurrei com um aperto na garganta, “mal, tu sabes tia o quanto eu o amo”.

Eu conheci o Júlio por um feliz acaso. Naquela altura o meu tio ainda ali vivia, a casa era mais abastada, e lembro-me que passeava a cavalo pela propriedade, quando achei que me perdi. Caminhava pela floresta a pé com o cavalo pela mão, à procura de orientação, quando o vi nu a banhar-se numa espécie de pequena lagoa ou ribeira.

E quando ele saiu da água e me viu, a parecer um deus a pisar terra firme, não sei porquê, nós sentimos uma ligação, uma coisa que eu nunca sentira, nem com homem, nem com mulher, e acho que o amei desde esse dia.

Ele estava na propriedade ao lado, e todos os dias seguintes nos encontrámos naquele lugar secreto, tomávamos banho nus, riamos de coisas sem graça como jovens que éramos, até ao dia em que me beijou, com um gosto de amêndoa na boca.

Depois ele pediu para eu lhe virar o rabo e foi quando eu tive aquele gosto pela primeira vez, ele deitou-se ao meu lado, eu sentia o pau dele teso, a tocar na minha pele e no meu ânus, e foi quando eu fechei os olhos e ele me penetrou o cu, ali mesmo em cima da relva fresca.

Tínhamos parado de conversar fazia um minuto pouco mais ou menos, e ambos olhávamos para o fogo, quando a minha tia voltou a falar, “quando vocês se conheceram eu percebi logo”, eu olhei para ela e perguntei, “o quê, tia?”, ela continuou, “que ele andava a comer o teu cu, percebi logo, e depois confirmei”.

Ela deixou-me um pouco surpreendido, falou de uma forma ao mesmo tempo doce e rude, e depois continuou, “ele chegava e vocês iam logo para os teus aposentos, e um dia eu fui atrás de vocês e vi pela fechadura e por um buraco na parede, que ele estava a foder o teu cu, eu conseguia ver o pénis dele a entrar e a abrir o teu ânus e tu gemias de prazer”.

A mim só me ocorreu perguntar, “um buraco na parede?”, ela sorriu, “não sejas ingénuo, querido, eu e o teu tio sempre tivemos uma boa relação, mas ele e eu tínhamos outras necessidades, eram e são coisas que não se diziam, e ficavam em casa, o mundo não podia saber”.

O meu espírito que vos conta esta história diz agora que estávamos em 1840, um ano em que era costume as senhoras juntarem-se no salão aquecido a contar fofocas e a olhar para os homens nas suas jaquetas e calças justas, nos seus cabelos compridos apertados em rabo de cavalo.

Depois a minha tia continuou, “não era só eu que te via pelo buraco, o teu tio também, ele só não gostava que vocês dessem tanto nas vistas, muitos homens naquela altura e também hoje fodem com outros homens, mas ninguém pode saber, fora de casa, compreendes, querido? O mundo não aceita esse tipo de sexo, ficávamos arruinados”.

Saíram-me da boca algumas palavras, “mas o tio?”, ela continuou e riu, “o teu tio fazia-se de forte, voz grossa, mas a paixão dele era levar no cu, e fazer sexo com outros homens, e o buraco era para isso, para eu ver”, e eu perguntei, “e onde arranjava outros homens?”, ela respondeu, “eles arranjavam-se entre si, querido”.

Ficámos outra vez em silêncio até que ela prosseguiu, “compreendo o Júlio, ele voltou a falar contigo?”, eu abanei a cabeça a dizer que não, eu sentia que quando um amigo se casa, é um amigo perdido, e para sempre. A afeição ciumenta de uma mulher, essa afeição desconfiada, inquieta e carnal, não toleraria o apego entre mim e Júlio.

Mesmo assim o homem e a mulher são sempre estranhos de alma, de inteligência, permanecem beligerantes, são de raças diferentes, deve haver sempre um domador e um domado, um senhor e um escravo, seja um ou outro, nunca os dois serão iguais e por isso acreditava que se existia amor entre eles, mesmo assim um dia o Júlio apareceria.

Eu continuei, “o Júlio não mais me falou, mas ela sim”, a minha tia abriu muito os olhos, “ela falou contigo, como assim?”, eu sorri para ela, “eu também fiquei surpreendido, ela apareceu em minha casa”, a minha tia mexia-se nervosa de curiosidade, e eu disse: “ela queria saber coisas dele”.

Eu contei à minha tia que eu e a mulher do Júlio, ali sozinhos, no calor da lareira da sala, em silêncio comigo à espera, até que ela cravou os olhos no meu rosto e perguntou, “você já amou alguém?”, eu na altura balbuciei, “não sei, acho que sim”, e ela continuou, “então conte-me, como era ela?”.

Eu inventei uma história, ela ouvia-me atentamente, com sinais frequentes de reprovação e desprezo, e de súbito: “Não, não, você não entende nada disso. Para que o amor seja bom é preciso, penso eu, que nos perturbe o coração, torça os nervos, assole a cabeça, que seja – como diria? – perigoso, mesmo terrível, quase criminoso, quase sacrílego, que seja uma espécie de traição, quero dizer que deve romper os obstáculos sagrados, as leis, os laços fraternais, um amor tranquilo, fácil, sem perigos, será, realmente, amor?”.

E enquanto ela dizia isto, ela deitou a cabeça no meu ombro, o vestido um pouco levantado, deixando ver uma meia de seda vermelha que os lampejos da lareira inflamavam de quando em quando, e depois lançou-me os braços ao pescoço, e, atraindo-me bruscamente a cabeça, os lábios dela procuraram os meus.

Eu disse à minha tia: “fiz um esforço tremendo para fugir dela”, e perguntou a minha tia: “e ela? que danada!!”, e eu contei, depois ela acalmou-se e disse: “era o que eu desconfiava, o Júlio não deixa de falar de ti e do tempo em que se banhavam nus na ribeira, acho que o meu homem te ama, e tu?”.

“eu disse-lhe depois tia que era um amor fraternal de irmãos”, disse eu, e minha tia: “e ela acreditou?”.

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