Georges Bataille - O Erotismo - Biografias Eróticas
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Georges Bataille - O Erotismo

De entre os seus principais trabalhos podemos destacar: "O erotismo" (1954); "A experiência interior" (1943); "O culpado" (1943); "A parte maldita" (1949); "A literatura e o mal" (1957), e seu polémico ensaio apontado anteriormente, "Sobre Nietzsche" (1945). 

Bataille ainda escreveu obras literárias como "História do Olho" (1928), "Madame Edwarda" (1941) e "O Azul do Céu" (1957). 

Georges Bataille

No "O erotismo", Bataille defende que o erotismo é uma experiência unicamente humana, não explicável pela ciência, pois no erotismo, a continuidade possível está presente no outro.

Na sua argumentação sobre o erotismo, o ser é convocado a deixar as puras esferas do conceito e pousar nas tramas do corpo. 

Do ser em queda, somos levados àquilo que, ao mesmo tempo que é ultrapassado pelo erotismo, é também a sua chave: a reprodução. 

A aposta na imanência é radical, o ser começa quando começa o corpo, entendido como instaurador do abismo que separa um homem de outro homem, o que nos condena a uma solidão absoluta cujo império cessa apenas com princípio de outro, o império da morte: “Cada ser é distinto de todos os outros. 

Seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua vida podem ter para os outros algum interesse, mas ele é o único interessado directamente. Ele só nasce. Ele só morre. Entre um ser e outro, há um abismo. 

Esse abismo receberá o nome de descontinuidade – os termos descontinuidade e continuidade são as chaves para compreensão daquilo que o erotismo põe em jogo.
A fim de apresentar a oposição fundamental entre continuidade e descontinuidade do ser, Bataille incursiona no que, na história da vida, precedeu a reprodução sexuada. 

No caso dos humanos (um de entre outros seres sexuados), apenas no nível das células reprodutivas, a morte coincide com o nascimento de um novo ser. 
O embrião é o resultado da fusão mortal (oposta à divisão mortal dos seres unicelulares) entre o óvulo e o espermatozóide, esses “dois pequenos seres descontínuos”. 

Desse modo, na origem da vida está a origem do abismo, a origem da solidão do ser descontínuo que somos: o embrião surge a partir dos cadáveres de dois outros seres descontínuos, o óvulo e o espermatozóide.
É preciso, no entanto, passarmos do espermatozóide ao homem, do óvulo à mulher, para entender que a radicalidade de nossa solidão coloca e é colocada em jogo pelo que Bataille chama de erotismo. 

Fazendo isso, entenderemos porque o homem é um animal-paradoxo, antónimo de si mesmo “e livre para se assemelhar a tudo que não é ele no universo”.
Outras ideias fundamentais desta obra, tratadas nela como um todo são a interdição e a transgressão. As interdições são as restrições impostas - nunca de fora - numa sociedade, para que o mundo humano permaneça com um certo grau de organização.

Elas estão diretamente ligadas ao mundo do trabalho, que é o mundo da acumulação, da ordem e da disciplina. Elas regram o mundo humano e são uma das principais características que nos diferenciam dos animais.

Assim, a interdição pode ser colocada próxima da descontinuidade do ser. Estando esta última ligada à sustentação das formas, ao respeito aos limites.

Já a transgressão é a ruptura, a quebra (temporária) das correntes das interdições, que nos traz a angústia e a sensação de pecado, que são o passo inicial para a entrada no erotismo. 

As transgressões estão ligadas ao mundo das festas, que é regido pela desordem, pelo constante dispêndio, a violência, o gastar de forma desmedida, enfim, os excessos. 

Porém, é importante ressaltar que a transgressão não existe em oposição à interdição - como no caso das ideias de bem e mal na tradição judaico-cristã mas sim a complementa, e não se opõem pura e simplesmente. 

A transgressão é essencial para a passagem do ser de um estado equilibrado para o estado de excesso sexual intrínseco ao erotismo. 

Ela faz emergir certa "animalidade" no homem, porém não acaba com a interdição, nem vice-versa. Sem as transgressões ou sem as interdições, o erotismo nunca estaria completo. 

Segundo Bataille, o cristianismo teria transformado todas as transgressões em pecado, rejeitando a impureza sagrada. Tudo aquilo relacionado às transgressões foi afastado da esfera do sagrado, o que fica evidente no modo como o cristianismo trata a figura de Lúcifer, o anjo da primeira transgressão, que perdeu seu status divino. 

Dentre os estudos que Bataille apresenta em "O erotismo", podemos destacar os dois sobre o Marquês de Sade, onde ele aponta primeiramente como Sade expõe em seus romances, uma espécie de "transgressão total", que iria além das capacidades humanas. 

No discurso de Sade haveria uma espécie de negação total do outro, pois se o erotismo leva ao acordo, ele desmente o movimento de violência e morte que ele é, a princípio. 

Bataille termina os seus estudos" sobre este autor explicando como foi ele quem nos revelou várias "verdades penosas". Ele preparou o caminho para os homens de hoje terem consciência do que significa para eles a transgressão. Assim nos é apresentado um Sade muito mais próximo das ideias contidas em seus livros. 

Agora iremos atentar mais especificamente à ideia de conflito presente no trabalho do autor de "O Erotismo". Ao considerar o erotismo, Bataille estabelece dois planos de conflito: através do deboche, que é uma oposição à elevação moral do pensamento; e através da subjectividade focalizada, que manifesta uma cisão da consciência. 

Para Bataille, o erotismo trás uma contradição insuperável e afirma uma cisão abissal no âmago da consciência. As contradições entre ordem e desordem, razão e instinto não são sanáveis. Desta forma, há uma heterogeneidade no espírito. O erotismo apresenta-se como "paradigma de contraditórios não conciliáveis".

Em "O erotismo", Bataille faz uma extensa dissertação sobre o tema enunciado no título, estudando-o de forma minuciosa e mostrando como ele está intrinsecamente ligado aos homens, sendo uma expressão deste em seus estados extremos. 

Há o erotismo dos corpos, quando os humanos se “cansam de ser a cabeça e a razão do universo” e, transgredindo o interdito, o impossível, fazem do abismo uma possibilidade precária de encontro dos seres, precária porque tal encontro não destruirá a descontinuidade, seus corpos não serão dissolvidos um no outro. 

Eles se apaixonam e, então, querem violar o corpo um do outro, abri-lo. Tiram a roupa, eis a primeira violação, a violência erótica se põe em jogo com a libertação das aberturas dos corpos. 

O ato decisivo é o de tirar a roupa, ele promove o obsceno, a transgressão do impossível que promoverá o encontro – ainda que precário.
A roupa é o biombo móvel que se porta a fim de interditar a encenação visível das regiões secretas do corpo, seus buracos e aclives obscenos, impossíveis ou inaceitáveis “das formas de vida social regulares, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos”, isoladas umas das outras por um abismo. 
Suspenso o biombo das roupas, dois corpos se invadem, primeiro por intermédio dos olhos, depois utilizando o resto do corpo, ou melhor, o corpo inteiro: “A nudez se opõe ao estado fechado, ou seja, ao estado da existência descontínua”. 

A nudez é, portanto, a realização relativa da destruição dos contornos do ser, ou, dizendo de outro modo, a realização parcial da impossível continuidade entre um ser e outro, pois a total continuidade equivaleria à destruição dos seres envolvidos na cena erótica.
Assim, a nudez faz com que os corpos se abram “à continuidade através dos canais secretos que nos dão o sentimento de obscenidade”. 

A obscenidade equivale ao erotismo que perturba e desordena a “posse da individualidade duradoura e afirmada”. 

O império da descontinuidade, da solidão abismal que separa um indivíduo do outro, é abalado pelo movimento erótico. Chegamos, então, ao grande paradoxo do espírito humano.
Tal paradoxo consiste no seguinte: sofremos a solidão abismal da descontinuidade implicada no fato de sermos vivos, no entanto, ansiamos a imortalidade, equivalente da prorrogação infinita dessa mesma descontinuidade que nos angustia e nos abisma.
Bataille divide a atividade humana em dois campos; o gasto improdutivo, mais tarde um equivalente do erotismo, localiza-se no segundo campo.
O primeiro, o do “uso do mínimo necessário”, destinado à “conservação da vida e ao prosseguimento da atividade produtiva”, é o campo que se confunde com a noção de utilidade clássica, segundo a qual a vida tem por finalidade o prazer, mas um prazer moderado: o prazer excessivo seria patológico, devendo se submeter, por um lado, à aquisição, produção e conservação dos bens e, por outro, à reprodução e conservação das vidas humanas – o que para Bataille seria a redução da vida humana à condição mais lamentável.
O segundo campo da atividade humana, oposto ao primeiro, é o dos gastos inúteis, das finalidades sem fins, ou daquilo que encontra um fim em si. O autor francês oferece uma lista de exemplos: “o luxo, os enterros, as guerras, os cultos, as construções de monumentos suntuários, os jogos, os espetáculos, as artes, a atividade sexual perversa (isto é, desviada da finalidade genital)”.
Ele pode ser colocado como um dos precursores do que foi convencionado chamar de "pós-modernidade".

george bataille
Erotismo de George Bataille

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Devido às contribuições que esta obra é capaz de oferecer, principalmente no âmbito teórico através da discussão de conceitos, ela deveria ser mais frequentemente lida, apesar de seus diversos problemas, principalmente pelos que trabalham com história intelectual, relações de género e os que se interessam pelos acalorados debates sobre pós-modernidade e pós-estruturalismo. 

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